Coluna IRanimA

Aqui escrevem colaboradores IRanimA - www.iranima.net 2ª Feira - Roxanne W. 3ª Feira - Daniel Lourinho Campos 4ª Feira - Ana Fernandes 5ª Feira - Maria José Martins 6ª Feira - Maria Augusta Sábado - Zalberto Rato

Quinta-feira, Janeiro 25, 2007

Ardências

Ardem-me as palavras, na febre subtil das intenções...
Frutadas,
Quentes,
Embriagantes…
Como um bom vinho róseo e encorpado
A exalar as sumarentas delícias das mais puras castas de uvas!

Ardem-me as intenções, na carícia breve de um arroubo…
(In) voluntário,
(Im) perceptível
(In) contido…
Como a ténue deslocação de ar
Do mais débil pestanejar!

Arde-me o atrevimento do arroubo,
No formoso portal dos lábios em flor,
Rubros,
Ávidos,
Trémulos de um desejo
Milimetricamente controlado
Ao rigor do destempero a que ascendo
Em espirais de (in) dissimulada agonia!

Ardem-me os lábios, pelo (im) provável toque dos teus
No virtual brasido de um beijo
Etéreo,
Fecundo,
(In) submisso,
Que o pensamento selvagem já adivinhou
Ousado e livre
Perfilado em requebradas danças
De sublimado erotismo
Por detrás de sete véus de tentação e de refinadas transparências…

Arde-me a fragrância do beijo húmido,
Explosivo,
Na tangencial amplitude do céu-da-boca como inferno em chamas…
Na língua inteiriçada,
Impaciente,
Abrasiva…
Na pressa da saliva morna, misturada,
No sabor a mel e a sangue vivo,
No travo amargo ao fel da cupidez…

Ardem-me os olhos, a pele
E todos os sentidos, abruptamente, inflamados,
Inadvertidamente despertos,
Impregnados de inexplicável e indecorosa urgência
Nos rabiscos fugazes deste poema…

MJose

Sexta-feira, Janeiro 19, 2007


Regresso de uma viagem sem cor...sem paisagens bonitas, montanhas geladas ou praias paradisíacas...
Volto sim de uma viagem ao mundo da dor, e ao centro de mim.
Acumulados na bagagem, ainda por desfazer, trago três meses de dias e noites a deambular por um quarto, onde a impotência e a revolta se debatiam em combates ferozes, com uma agonia sem fim...
Como ser humano, não sei se regresso mais rica ou mais pobre...sei apenas que voltei diferente, e que a cada dia que passa ,me questiono mais sobre o sentido da vida...
As malas essas vou deixá-las ainda um longo tempo por desfazer...quem sabe se o tempo , esse velho chamado tempo , se encarrega delas...


Regresso
nas águas diáfanas
de uma cascata

No
brilho gasto de
uns olhos cansados

Num
sorriso débil
que tento alcançar

Nos
passos por esboçar
em trilhos já gastos

Regresso!...

Mas, se regresso, é porque renasço
Nas saudades do teu abraço
Neste dia em que nasço
Pela primeira vez...sem ti pai...

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

CADEIRA DE BALOIÇO

PARA A FRENTE

Num baloiçar que embalas atordoantes avanços e recuos sobre os quais agora descanso

PARA TRÁS

Assente no instante em que a madeira curvada e a recta emadeirada se tocam num pensamento oscilante

PARA A FRENTE

Desejo fixar-me a este movimento sincronizado

PARA TRÁS

Embalada na incerteza que trago comigo

PARA A FRENTE

Vou, não sei se vou

PARA TRÁS

Parada não fico

PARA A FRENTE

A embalar daqui não saio

PARA TRÁS...

…PARA A FRENTE …PARA TRÁS…

...PARA A FRENTE … PARA TRÁS…

...PARA A FRENTE … PARA TRÁS...

Terça-feira, Janeiro 16, 2007


o meu coração é como um guarda-chuva que já foi demasiadas vezes aberto e fechado, molhado, encharcado e seco vezes sem conta...
o meu coração é como um gurada-chuva de varetas voltadas e revoltadas pela acção do vento...
o meu coração é como um guarda-chuva esquecido num aeroporto pois não se agarrou ao resto da bagagem a tempo...
o meu coração é como um guarda-chuva esburacado, descosido ou simplemente meio torto de tanto uso...
o meu coração é como um guarda chuva que com as mãos despedaço...primeiro pela costura, depois por qualquer lado...
o meu coração é um guarda-chuva em pedaços que com as mãos em sangue volto a atar com intenção de voltar atrás...
o meu coração é um guarda-chuva atado às varetas, meio torto, esburacado... queres?

Domingo, Janeiro 14, 2007

Segredos escondidos de mim mesmo
suicídios de minha mente deserta,
falsas memórias que em vão procuro
nos subúrbios esconderijos em parte incerta...

Vivo sem saber quem sou,
morro sem saber quem fui,
que do sangue
que corre em meus pulsos
uma última gota se suicida
e a história sobre mim contada
será mais uma mentira...

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Desejo

A tua boca tão perto,
Á breve distância de um impulso…

Os meus olhos na luz dos teus
A perpetuarem a agonia…

O teu sorriso como um íman
A convidar-me à loucura…

Tu, sem piedade de mim,
A adivinhares-me as intenções…

Tu, sem nada fazeres
A atiçares-me o desejo…

Eu, em sobressalto,
A cobiçar o perigo que imana da tua aura…

Eu, em desespero,
A perder-me de mim para me encontrar em ti…

E a tua boca…
A tua boca tão perto…
...Tão perto e tão longe de chegar à minha!

MJose

Mais uma noite de consumo. Debilitada pela ressaca, vagueava pelas estreitas ruas do passado quando vi a porta de um bar entreaberta. Escolhi, para contorcer-me de palavras doridas, um lugar onde a luz amarelecida escondia o meu olhar apagado que combatia com as pálpebras que me queriam cegar. Papel e vinho sobre a mesa para saciar a mulher sedenta de afogar memórias. Trémula, peguei no afilado copo aspirando a essência desse aroma que se libertava e provei. Saboreio-o de um terroir que borrava um jovem e transparente traço intimidando uma dureza adstringente. A minha boca permaneceu semiaberta enquanto aquela ínfima porção descia nos contornos de um desejo que se inflamava. De um só trago, verti o que restava dessa lembrança. Esvaziei mais um copo e outro, e outro abandonando-me à embriaguês que me volatilizava pensamentos encorpados de um bouquê envelhecido. Degustei imagens opacas de verbos que foram conjugados. O palato ferido entornou pigmentos fechados. Copo cheio, copo vazio, copo cheio, copo vazio. Despejei e despejava acídulas anotações até o empregado do bar abeirar-se de mim:
“Desculpe amiga, mas já é tarde e queremos fechar. Acho que por hoje já chega… é melhor ir para casa descansar… quer que chame um táxi?”
Eu, tropeçando nas sílabas embriagadas, balbuciei-lhe:
“O que sabe você das memórias para dizer que por hoje já chega?...
… Alguma vez escreveu para esquecer?”

Segunda-feira, Janeiro 08, 2007



todos nós temos cá dentro uma meia de fantoche...
somos simples como um fantoche e tantas são as vezes que nos deixamos manipular...
somos tão fantoches que por inércia ou simplesmente por sermos apegados à preguiça nos limitamos a abrir e a fechar a boca ora por termos sono, ora para a deixar ser ocupada pelas palavras dos outros!!!
todos temos um cabelo colorido, uns olhos esbugalhados e uma língua vermelha como se tivessemos acabado de comer um pinta línguas!
à minha volta outros tantos fantoches na mão de outros quaisquer...
todos somos uma meia de fantoche...mas daquelas meias chungas com uma raquete, brancas de preferência (que usamos com sapatos e fato de treino)...
sento-me numa cadeira de verga e deixo-me ser vestida com uma meia de fantoche...branca, incómoda que me provoca alergia e brotoeja na pele...
como a vontade está despida de mim ali fico eu inerte a ser manietada pelas perturbações dos outros a fazer cara de sapo cocas, com os olhos esbugalhados e a boca retorcida....
de quando em vês levanto-me de rompante e descalço-me da meia que já fui...atiro-a ao chão, espezinho-a e retomo o controlo do corpo e do falso sorriso...
todos nós temos cá dentro uma meia de fantoche...

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007

Incoerência

Se, se acende em mim o desejo...
De, que é urgente escrever!
De, que é urgente pintar!
Porque deixo então, que os dias me escorram, por entre os dedos!?
E me entrego , ao entorpecimento que me invade!...

Incólume ao tempo
Cresce em mim a inércia.
Apaga-se em mim o desejo
E foge de mim essa vontade...

Quinta-feira, Janeiro 04, 2007

Íntimo…

Indomável ilusão,
Inflamados impossíveis,
Implacável insatisfação…

Insurjo-me, inalteradamente!
Incomodada, incomodo insistentemente!

Impaciente, invado incontestadas incongruências,
Indisfarçáveis imoralidades…
Intrépida, insisto!
Insubmissa, invoco idiossincrasias individuais!

Irrefutavelmente imperfeita,
Invento-me inebriada...
Ilumino-me,
Inspiro-me,
Incendeio-me!

Incessante, imortalizo impolutos improváveis,
Ideais intocáveis,
Insidiosas interrogações…

Incólume, invisto,
Imprevisível, improviso…

Imune, integro-me,
Imponho-me inteira!

MJose

The sweetest little song

You go your way
I'll go your way too

By Leonard Cohen



Dia - Danças?

Noite - Danço, mas não digas nada a ninguém. É um segredo que guardo no corpo. Escuto meus movimentos embalados no som que liberto, desenhando no espaço, um gesto. Gestos que derramam vida deste corpo, que à semelhança de tantos outros vivem rendidos a músculos paralisados na vontade de. Corpo cansado que sucumbe aos encantos do sofá no final de tarde, ou a uma cama que assinala o ponto final de mais um dia. Conceder-nos-ei uma dança à luz da lua, reveladora dos traços da alma…

Dia - … e eu, uma à luz do sol, onde até as nossas sombras ficarão a descoberto… e ao som de que música?

Noite - A nossa… no bater dos corações teremos o ritmo compassado na vontade de nos deixarmos guiar...

Dia - Os nossos segredos guardados revelar-se-ão na liberdade de escutar o movimento que nos conduzirá num só gesto, nessa dança sincronizada do eterno retorno do dia... e da noite...

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

Rudy embarcou num comboio sem destino, que já ia a meio caminho do seu ignoto fim. Mas Rudy não quer chegar lá. Não, Rudy não quer chegar a lado nenhum. Ele precisa é de tempo, ele precisa é do tempo: do tempo que nunca teve para viver, do tempo que nunca teve para amar, do fero e áspero Tempo que, embora se avolume inexoravelmente num infindável suceder de segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos, nunca lhe deu tempo - a ele, Rudy - para viver.
Rudy não entende como nunca amou. Rudy não percebe como nunca viveu. Segue sozinho - mas sempre acompanhado pela sua ignorância e pela modorra que o invade e lhe tolhe os impulsos vitais - na carruagem da terceira classe. E segue só porque todas as outras pessoas estão um ou dois passos à frente dele, uma ou duas classes acima, em vagões confortáveis e modernos, em vidas completas e felizes...
"Porquê?", pergunta-se Rudy, "Porquê?". Será por ser gordo? Será por ser feio? Será por não ter tentado o suficiente? Será por ter tentado demais? Rudy precisa de tempo, daquele tempo que sempre esbanjou sem nunca ter. Precisa de tempo para viver. Precisa de tempo para procurar respostas, para solucionar o enigma da sua vida. E, por isso, Rudy segue sozinho naquele comboio sem rumo nem destino - não pela ânsia de saber o que está no término da linha, mas pela sofreguidão de descobrir o que ficou para trás, de vislumbrar e viver aquele doce segredo do mundo no qual só ele nunca reparou, no qual só ele nunca almejou agarrar...
Rudy pensava que todas as coisas boas da vida acabavam por encontrar, com naturalidade, aqueles que por elas sabiam esperar. Mas, recentemente, Rudy descobriu que essas coisas boas podem chegar demasiado tarde... É tarde, já é tarde para ele! E o comboio corre célere, num perpétuo movimento eléctrico e mórbido.
Subitamente, Rudy sentiu todos os assentos vazios, todas as janelas embaciadas, todas as juntas metálicas e todas aquelas envolvências inertes a acossá-lo em uníssino:
"Em toda a tua vida, em todos estes anos,
Nunca viveste, nunca amaste!
Apaga a luz, porque os teus sonhos são negros
Como o azeviche que dá cor às tuas lágrimas!
Que conselho sensato estás à espera de ouvir?
Será melhor esperar por ele? Ou será melhor viver?
Aprende a ganhar controlo!
Aprende a viver a tua vida!
Aprende a sonhar o teu sonho!
Aprende a lutar pela tua demanda!
Tens que sair desse infinito torpor
Para descobrires o sentido da vida,
Para apreciares o sabor do amor!"
Por entre inintelígiveis sons que insistiam em atiçar Rudy, o comboio chegou, enfim, ao término da sua jornada. Rudy saiu da carruagem, ainda cambaleante, ainda atordoado. A retrospectiva da sua desditosa vida arrebatou-o, fê-lo pensar. Mas Rudy sabia que não mudaria nada na vida dele nele. Rudy sabe que, mal o comboio regresse, voltará a seguir viagem nele, num nefasto ciclo vicioso que o corrói por dentro, que o mata a cada passo, a cada zunido dos gonzos das carruagens. Não há escapatória: e o funesto som da carruagem já se faz ouvir, ao longe, como se viesse dos confins do mais dantesco pesadelo, a que Rudy chama vida...