Coluna IRanimA

Aqui escrevem colaboradores IRanimA - www.iranima.net 2ª Feira - Roxanne W. 3ª Feira - Daniel Lourinho Campos 4ª Feira - Ana Fernandes 5ª Feira - Maria José Martins 6ª Feira - Maria Augusta Sábado - Zalberto Rato

terça-feira, novembro 28, 2006

José pegou na fotografia que repousava sobre a mesa-de-cabeceira. Nela, ele sorria. E ela também. Mas ela não estava ali com ele. É verdade que acabara de a ver, mas não era a mesma coisa. Há dois meses que ela não esboçava um sorriso, nem um movimento, nem uma palavra. Há dois meses que ela não o olhava, não o beijava, não o amava. Isto porque haviam passado sessenta dias desde que a sua esposa entrara em coma, na sequência de um acidente vascular cerebral, evento infrequente em pessoas de meia-idade, e fora internada no hospital da cidade, a doze quilómetros de distância da vila. E desde então, um vazio instalara-se no local da mente de José onde antes morava a imaginação, o dinamismo, a vontade de viver. Emocionalmente derrotado, meteu baixa por tempo indefinido para poder seguir a situação da sua mulher, bem como para tentar endireitar o seu próprio mau estado psicológico. Por diversas vezes, ao longo desse tempo, cogitara consultar um psicólogo ou um psiquiatra, mas abandonara tais intentos quando, após sucessivas reflexões, concluiu que não seriam algumas horas de conversa paga que lhe trariam a sua mulher e, consequentemente, a sua alegria e imaginação de volta. Não, o problema dele nascia no dela, como se eles fossem duas gotas de águas provenientes de uma mesma nascente doente. E nenhum psicólogo tem o poder de tratar um manancial tão vivo, tão poderoso, tão belo como aquele que os une.
Nesse final de manhã do dia 1 de Dezembro, quando ele parou junto à praia, tinha acabado de vir do hospital, onde falara com o médico responsável pela sua mulher. Este dissera-lhe, uma vez mais, que as lesões cerebrais eram já extensas e que, mesmo que ela recuperasse, iria fazê-lo à custa de algumas capacidades intelectuais. José parecera não acreditar nessas palavras pessimistas do clínico. Perguntara-lhe, num tom de voz embargado, se ela o conseguia ouvir, se aqueles poemas que ele lhe recitava todas as manhãs eram por ela sentidos como ternos afagos, como ansiosos beijos.
- É improvável que os oiça. – respondera o clínico – Mas ainda não sabemos explicar ao certo todas as reacções que ocorrem, a nível cerebral, durante o coma. Se isso o faz sentir bem, tem o nosso aval para lhe ler os seus poemas, senhor José.
- É que, sabe, – continuou José – esgotaram-se-me os poemas. Sou um poeta que não tem nada de novo para oferecer à sua própria mulher. Por isso, trago hoje comigo um leitor de cassetes dentro deste saco, bem como uma cassete que ela gravou, onde recita Camões, Pessoa, Florbela e Cesário Verde. Ela tem uma voz maravilhosa, senhor doutor. E pode ser que reconheça na cassete a sua voz, talvez isso a faça despertar.
O médico devolveu-lhe então um sorriso amarelo, rematando:
- Está à vontade. Tenha é atenção ao volume, há outras três doentes na mesma sala onde ela está, como sabe.
- Terei cuidado, senhor doutor. Agradeço o seu consentimento.
José entrou na enfermaria com passos curtos e silenciosos para não disturbar as pessoas que ali se encontravam internadas, mas tal provou-se desnecessário porque, das três outras doentes que ali esperavam uma cura, duas ainda dormiam e a terceira estava, tal como a esposa de José, em coma, deitada numa das camas que se situavam junto à parede distal, local onde havia material médico mais avançado que permitia aí a permanência e vigilância de doentes em estado comatoso. Ele pousou o saco que transportava o leitor de cassetes na mesa que se encontrava ao lado direito da cama, junto à parede, puxou a cadeira e sentou-se ao lado dela. Como era seu costume desde que ela dera entrada no hospital, não lhe tocou: custava-lhe sentir aquela pele que antes transpirava ternura, afecto e calor, mas que agora não passava de uma cútis empedernida, qual estátua de branco alabastro. Não, aquela não era a esposa dele, pensava José por vezes. Não, aquela não era a sua vida, tudo não passava de um pesadelo que ansiava pelo momento em que a mente que o concebera fosse acordada por uma tempestade ou por um despertador.
Colocou os óculos como se fosse ler e deu-lhe os bons dias:
- Bom dia, minha princesa.
Tossicou como que para aclarar a voz, pegou num caderno vazio que guardara dentro do saco juntamente com o leitor de cassetes, abriu-o, folheou-o e mostrou-o à sua esposa que, naturalmente, não viu as páginas em branco. Nisto, ele falou:
- Estás a ver? Já te li todos os meus poemas, agora só me sobra um caderno em branco, despojado das minhas palavras e dos meus sentimentos. Desde que estás aqui, perdi a minha fonte de inspiração, a Rocha não é nada sem a tua presença na minha vida. Fazes-me falta.

José calou-se. Com um semblante austero, fechou o caderno e pousou-o em cima da mesa. Retirou também os óculos da sua cara, colocando-os fechados sobre o caderno. Depois, permaneceu quieto durante algum tempo, observando-a de alto a baixo, como que tentando vislumbrar o mais pequeno esboço de movimento que ela pudesse gerar. Certo dia, ele quase jurara ter reparado num leve mover do polegar da mão esquerda dela, mas logo inferiu que tal não passara de impressão sua, até porque os médicos não se coibiam de lhe explicar que a evolução do estado clínico da sua esposa não estava a ser, de todo, favorável. Mas ele acreditava que um milagre era possível e, na esperança de ser ajudado por intermédio de alguma improvável intervenção divina ou astrológica, ia vê-la todas as manhãs, na hora de visita daquela enfermaria, demorando-se junto a ela durante cerca de uma hora, como se ele fosse a lapa que teima em não se separar da rocha inerte, fria, dura e áspera. Por volta do meio-dia, ele saía sempre do hospital, até porque o horário dedicado às visitas findava por essa altura, só se admitindo novamente a presença de familiares junto aos doentes por volta das cinco da tarde, dado que as habituais visitas médicas naquele serviço decorriam após a hora de almoço, ao contrário do que era prática corrente noutros serviços em que essas mesmas visitas eram feitas, preferencialmente, num período mais matinal. Certo dia, José fizera essa mesma observação a uma enfermeira, que lhe explicara prontamente o motivo de tal rotina:
- É que os médicos deste serviço estão nas consultas externas durante a manhã.

Mas José, na verdade, preferia estar junto da sua esposa durante a manhã, e nem sequer aparecia por lá no horário vespertino. Isto porque ele acreditava que ela, na verdade, dormia um sono muito profundo, sendo mais provável acordar dele durante a manhã do que ao fim da tarde – é mais trivial e concebível acordar de manhã após uma noite de repouso do que despertar ao fim da tarde na sequência de um dia de descanso. E José queria estar lá quando ela levantasse as pálpebras, queria ser ele a olhá-la pela primeira vez após o seu sono reparador e a dizer-lhe, num silêncio repleto de sentimentos e palavras, que ainda estava lá para ela, que ainda a amava. Queria sentir o doce aroma da sua expiração junto à sua face outra vez. Queria ouvir a sua voz melodiosa junto aos seus ouvidos outra vez. Queria acreditar, queria escutar, queria cheirar, queria viver de novo.
- Como já não tenho mais poemas, – disse ele enfim, quebrando aquele longo silêncio que pareceu durar uma eternidade, embora o relógio não acusasse mais de cinco minutos de avanço desde que ele pousara o caderno e os óculos na mesa e começara a admirar, de alto a baixo, a sua esposa – trouxe algo que, creio eu, vai trazer-te recordações felizes. Trago comigo a cassete de recitação de poesia que gravaste há quatro anos, quando editei o primeiro livro de poemas, acho que te lembras. Sim, vejo que te lembras… – e José sorriu, imaginando que a sua esposa lhe devolvia um gesto afirmativo.

Colocou a cassete no leitor e carregou no botão de play, fazendo assim soar o bucólico som de uma flauta de pan, bem como a primaveril melodia do chilrear de pardais, rouxinóis e pintassilgos. Sobre essa cama musical de sonho, impôs-se uma voz cristalina e harmoniosa, uma voz tão bela como o mais belo dos cantos das aves. E essa voz feminina começou a entoar um dos mais lindos poemas de Florbela Espanca num tom tão inebriante e pungente, que seria certamente capaz de fazer estremecer até as cordas de um coração infeliz, incitando-as a entoar a mais bela das canções. E foi, em cada verso, em cada palavra e em cada rima um recital sublime, uma ode aos deuses e aos sentimentos humanos mais belos, o folhear de um livro dourado preenchido pelas mais belas das palavras. José sentiu-se, de facto, o “rei do Reino de Aquém e Além dor” ao ouvir aquela gravação, porque não conseguiu esconder uma lágrima inicialmente tímida mas que, com o evoluir do recital e do soneto, depressa se tornou numa pequena cachoeira salgada que começou a cair sobre os lençóis da cama onde ela repousava sem esboçar o mais leve gesto, sem desenhar a mais leve réplica face àquele primoroso momento. José não aguentou mais. Se aquela récita tão comovente não lhe despertava sentimentos, nada o poderia fazer. Premiu o botão de stop, arrecadou todas as suas coisas no saco, enxugou as lágrimas, recompôs-se, levantou-se e despediu-se da forma usual:

- Bons sonhos, minha princesa.

segunda-feira, novembro 27, 2006


Num café. Uma vidraça. Uma espera.
Uma cadeira. Um sol que inunda a vista. Um reflexo que bate no vidro. Um sol que aquece a face. Um fechar dos olhos. Um arrastar de pensamentos no meio daquele calor que me descongela.
Abro os olhos. Peço dois cafés. Puxo um cigarro, acendo-o. Fecho os olhos, saboreio… Abro os olhos, liberto o fumo… olho a vidraça. Um cão que passa na rua e ladra a quem furiosamente tenta controlar um casaco devassado pelo vento. Uma árvore. Uma nuvem em frente ao sol. Um verde da relva que reclama atenção.
Os cafés chegam. Abro o pacote de açúcar, derramo o conteúdo para dentro das chávenas brancas onde se lê “Delta Platina”. Pego na colher e em movimentos circulares faço desenhos na espuma, cor de café, consistente, aveludada, que deixa pedaços nas paredes da chávena… Olho a vidraça, pouso a colher onde a espuma repousa preguiçosamente desde a ponta, até a meio. Na rua passa um casal de namorados, um carro vermelho e logo a seguir um cinzento a rasgar o colorido da paisagem.
Entram e saem pessoas no café, há quem venha pela bica, pelo croissant ou pela bela da torrada de sempre (pois não querem ter o trabalho de habituar o estômago a querer algo diferente pela manhã).
Pego na chávena com a mão direita, depois junto-lhe a esquerda numa tentativa de aquecer as mãos daquele dia com um sol de Inverno quente e um vento frio. Pouso a chávena "Delta Platina"…
Demoro-me a observar quem me rodeia e lentamente abro a mala e retiro o livro que no momento leio… Abro o calhamaço na página marcada e recomeço a leitura… Dois parágrafos adiante olho para a porta e depois para a vidraça… Ninguém…muito menos Tu!
O fumo do café liberta aquele odor de quem foi colhido por mãos negras, depois exportado, moído, embalado, depositado, filtrado, misturado com açúcar e seguidamente batido e deitado fora como uma argamassa espessa…
Recomeço a leitura… sem tirar os olhos das páginas, agarro no pedaço da loiça e deixo aquele aroma infiltrar-se pela boca, garganta até ao estômago aquecendo o caminho e voltar até à cabeça num movimento de arrepio…
Olho o vidro imaculadamente limpo e…ninguém…para além de uns miúdos com mochilas ou duas velhotas que animadamente parecem falar do episódio da novela (ou da vida de alguém) no dia anterior… Ninguém…
Não marquei contigo…mas cá no fundo esperava que viesses… o Teu café arrefece…a espuma desaparece e o cheiro esvai-se com a esperança que chegues e me digas que te atrasaste, que adormeceste…que te distraíste…
Fecho o livro…acabo com o que preenchia a minha chávena “Delta Platina”…
Amanhã à mesma hora?

domingo, novembro 26, 2006

Esta semana começou como mais uma folha em branco, à espera de ser preenchida, cansada de ser vazia nas palavras de Roxanne W, que foi através da dor que encontrou a inspiração que ousa preencher essas folhas onde as lágrimas derramadas se transformam em palavras, verbos e metáforas, borbulhos do sangue que lhe corre nas veias e lhe invade a mente... A caneta, o cordão umbilical que lhe une a mente ao papel, faz das suas e a folha já não está mais em branco!

A semana prossegue, tem de prosseguir porque os relógios das paredes paredes brancas, das igrejas petrificadas e dos pulsos inquietos nunca param e a terça feira chega enfim com a manhã de um dia útil por inventar, nas entrelinhas de um processo criativo levado a cabo pelo Daniel que nos faz querer numa doce melodia de um acordeão que é possível encontrar-se o movimento da felicidade num tempo Allegro, Ma non Troppo.

Depois, faz-se silêncio, um silêncio que não nos incomóda mas nos tira do lugar, nos faz ver que à vezes somos surdos no que toca a encontrar o nosso próprio silêncio, o nosso metro quadrado de existência superior perante todos os outros seres que coabitam o universo, o espaço onde Ana Fernandes resolveu organizar as suas ideias para um confronto com o mundo.

A Maria José tem como função meter a quinta, de nos tranquilizar com a velocidade cruzeiro no nosso veículo de libertação através da escrita, e é através da poesia que melhor sabe comunicar com os seus... De súbito, invade-nos de desejo, de vontade de procurar outras estradas, de tudo querer e tudo desejar e no corpo alheio o conforto do nosso próprio corpo encontrar.

Também a Maria Augusta ousa perder-se em doces delírios com uma outra alma sem rumo, que por fim resolve ir ao seu encontro e encontrar-se... Palavras bonitas, as da terna Margusta.

O final da semana contrasta com um início de fim de semana que nos trás a tranquilidade na imaginação de Zalberto Rato, um momento de descontração na viagem de uma mente criativa como poucas, de um sorriso que nos invade ao lermos as palavras que ao Sábado andam por aqui.

Ao domingo, cá estou eu, a recuar no tempo e a deliciar-me com as histórias que estes novos talentos vão deixando neste espaço que se quer de culto.


Saudações Pazkardianas,

sexta-feira, novembro 24, 2006


És a alma sem rumo onde me consumo nas noites vazias . Só em ti, me ouso perder em doces delírios. Anseio-te ao meu lado, percorrendo jardins proibidos na tentativa de colorir as minhas madrugadas. Além , na penumbra sem cor, vislumbro os teu lábios ardentes de desejo. Tento alongar os meus braços, sequiosa da tua boca, com sabor a pecado. Não consigo abarcar-te... Sedentos de amor, os nossos beijos dissolvem-se em ruidosos suspiros na noite. Rasga-se a rubra paixão num grito impotente!... Agitam-se as aves nocturnas em voos incertos á luz da lua. Já não quero esperar mais...saio de mim, e enlaço-te com a minha volúpia .
Nas pupilas, daqueles que, outrora foram os meus olhos, reflecte-se agora a felicidade suprema do reencontro...

terça-feira, novembro 21, 2006

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Ficção - Allegro. Ma non troppo.

Manhã de um dia útil por inventar. Lá em cima há um sol ou uma nuvem, um bulício caótico ou uma modorra infinita, uma vida ou uma morte. Que interessa? No metro não há nada disso. Há apenas uma carruagem apinhada e monocromática, a despeito das milhares de cores envergadas pelos milhares de transeuntes que, por mais refulgentes que sejam, não conseguem emprestar os seus matizes policromáticos ao profundo e dantesco negrume do dia. E há outra carruagem. E mais outra. E ainda outra. E nelas, mil e uma pessoas e três, quatro ou cinco mil e uma faces, porque uma pessoa não tem só uma face e é caso raro aquele de uma criatura humana que apenas ostente duas. Pessoas entram e saem de estações tendencialmente coloridas com sorrisos gradativamente cinzentos à medida que a hora de picar o ponto se aproxima. Pessoas atropelam-se. Pessoas digladiam-se. Pessoas correm, correm, correm...

O homem do acordeão não percebe o porquê disso. Talvez um dia já tenha percebido, mas desde que começou a fazer soar a sua triste melodia na carruagem 321, aquela que passa sempre às 8:37 na estação do Campo Grande, esqueceu o porquê daquela vida que corre todas as manhãs perante ele, perante as suas cantigas e as suas infelicidades. Allegro ma non troppo, parece ser esse o tempo do movimento daquela sinfonia antropizada, de compasso marcado por duas mil e uma pernas que não param, melodia do quotidiano, sinfonia sublime e medonha que algum compositor se esqueceu de anotar numa cinzenta e apressada pauta musical. Aquelas pessoas sem cor que envergam vestimentas coloridas desmultiplicam-se em colcheias e semicolcheias, sem pausas, com compasso individualmente definido e colectivamente anárquico, pelo menos em aparência. Não há tempo para mínimas ou semínimas, porque essas são notas musicais demasiado lentas e arrastadas para quem tem um passo tão ligeiro e fugaz. Mas o acordeonista insiste em fazer soar a sua ladainha carregada de semibreves e pausas, preenchida por erros, Adagio molto, num perpétuo e pungente movimento de braços e dedos que é apenas interrompido pelo tinido metálico de uma moeda de cobre a cair no copo de plástico que repousa aos seus pés, ao qual ele responde com um silêncio breve e um respeitoso, formal e mecânico inclinar de cabeça para a frente. E, após esse momento de reconhecimento monetário pela banda sonora daquela manhã que algum passageiro realizou com um esgar de repulsa e enfado, o movimento da canção acelera um pouco: é agora Andante, saltita ao ritmo dos solavancos da carruagem e, nos ouvidos de quem segue sentado, imiscui-se indissociavelmente com o soar de mil e uma vozes sem dono que preenchem e dão conteúdo ao comboio subterrâneo.

Acontece, por puro acaso, que uma das sombras sentadas se ergue subitamente ao fim de uma canção e se dirige paulatinamente para o acordeonista. Esse, habituado a desconfiar da presença e da aproximação das pessoas, - porque ele já não se considera mais uma pessoa e porque ninguém se aproxima dele, excepto de forma fugaz e amedrontada - engana-se no compasso da música seguinte, troca o tempo, em cinco segundos vai do pacato Andante ao atrevido Vivace que os seus dedos nunca ousam tentar. Erra, finalmente, as notas. Mas a sombra feminina que se acercou entretanto dele devolve-lhe um sorriso, coloca uma moeda de dois euros no copo de plástico e diz-lhe, num tom de voz afável e comovido que não conseguiu apagar da sua face enrugada duas tímidas lágrimas:

"Agradeço-lhe por ter tocado a canção da minha vida. Fez-me feliz."

O acordeonista não disse uma palavra: limitou-se a responder com um sorriso sincero e resplandecente, o que não seria revelador de um sentimento de gratidão excepcional, não fosse esse o seu primeiro sorriso genuíno em anos de mendicidade. Interrompeu aquele concerto que ninguém pedira, que incomodava muita gente e ao qual poucas pessoas retribuíam com uma moeda. Parou para olhar em volta, reparou pela primeira vez nas mil e uma faces da humanidade e constatou, por entre uma lágrima que foi como uma dádiva para a sua pele ressequida e suja, que algumas dessas faces resplandecem de reconhecimento, de alegria, de felicidade, de compaixão. Pena que as faces negativas as soterrem e as atolem de hipocrisia, cinismo, máscaras de indiferença, vil racionalidade.

O tempo do movimento daquela sinfonia popular que o acordeonista agora entoa é Allegro, ma non troppo. É o tempo da vida. E faz sentido que assim o seja, porque num fugidio momento, o homem do acordeão sentiu-se, pela primeira vez, incluído nesse livro interminável e insondável que é o da vida. É também o tempo da felicidade, esse movimento áureo e de plenitude que ele agora acredita ser possível desvendar, atingir, folhear, ler como se de uma pauta musical se tratasse e converter em melodia divinal. Uma melodia que não se quer em Adagio nem em Prestissimo, mas sim em Allegro. Ma non troppo.

O metro chegou ao seu destino final. O acordeonista sai, carregando consigo o pesado e velho acordeão que fora do seu bisavô e o doce peso de uma nova e inebriante novidade, a descoberta de que, por entre movimentos incessantes, perpétuos e carregados de indiferença, é possível encontrar-se o movimento da felicidade. Num tempo Allegro. Ma non troppo.
Daniel L. Campos

segunda-feira, novembro 20, 2006


Tenho uma folha em branco, uma imaginação em branco, uma obrigação em branco. Mente vazia, eco de uma inspiração que nem transpirada chega a preencher o papel.
Pouso a caneta, olho a vidraça, passo a vista pelo que rodeia. Mesas, relva, árvores, vizinha, verde, cadeira, luz, rua, sol, céu, gelado, caneta, folhas, papel em branco…
Fecho os olhos e num esgar de velocidade desesperada procuro na minha biblioteca mental um tema, um título, uma história, uma ideia…. Onde está o índice (interrogo-me). Encontro-o e deslizo o indicador pelas letras por ordem alfabética….
Nada!
Abro um livro, outro e mais outro e branco! Numa fúria desmesurada, e depois de ter atirado da estante todas as encadernações, dossiers, e folhas soltas, deixo-me cair no chão da minha mente e até a confusão gera infertilidade de ideias!
Choro. Cada lágrima que percorre a minha face é também vazia de sentido, de cor, de pensamento…A dor do nada sufoca-me!
Abro os olhos…fito a vidraça e depois volto a fixar a folha. Vejo um pequeno desenho que foi formado pelas lágrimas outrora vazias de cor e de ideias… Concentro-me e vejo aparecer no meio daquele branco imenso um branco molhado, incerto, tremido…Tenho uma folha de branco húmido, uma imaginação inundada, uma mente a transbordar e uma inspiração que de tão cheia que está escorre do olhar até às páginas em que me defino. Nada como a dor para preencher o papel!

sexta-feira, novembro 17, 2006

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